|
Augusto Rodrigues - O artista que amava Penedo e as mulheres - ( Jornal Nariz da Índia Mar/Abr 2000)
Augusto Rodrigues era uma dessas pessoas de quem o Brasil tinha orgulho e de quem Penedo também deve se orgulhar, por que ele trabalhou aqui grande parte dos últimos anos de sua vida, na sua casa, ao lado do antigo Clube Finlândia. Reconhecido mundialmente como um artista de primeira linha, Augusto gostava principalmente de desenhar mulheres - mais especificamente, cabeças de mulheres - e seu traço captava a sutileza e os mistérios do eterno feminino. Gostava também de registrar os movimentos da dança, do frevo do Recife, onde nasceu. Paisagens, pintava pouco. De Penedo ficou apenas um quadro a óleo do casarão colonial. Sua expressão artística era múltipla: poeta, chargista (ironizando sempre os poderosos), desenhista, pintor, jornalista e educador (fundou a Primeira Escolinha de Artes para crianças, difundindo essa idéia para o currículo do ensino normal. Em Penedo, pouco antes de sua morte, participou de algumas das primeiras reuniões da recém fundada Associação Pró-Natureza .
Com seu jeito amável, dava boas idéias para a defesa, do rio e das matas - e, na ocasião, os jovens fundadores da Pró-Natureza não sabiam que aquele pintor havia encabeçado uma luta vitoriosa, anos atrás, pela preservação do histórico Largo do Boticário, no Rio, que teria sido destruído quando da construção do túnel Rebouças. A casa de Augusto Rodrigues em Penedo é hoje habitada por seu filho, Antônio Carlos Rodrigues, que já presidiu a Associação Pró-Natueza e que pensa em transformar a casa, onde há um belo acervo de seu pai e de arte popular brasileira, num Museu. Antônio Carlos, no entanto, condiciona a abertura do Museu a uma maior luta da população pela preservação do lugar Nesta edição mostramos um pouco do trabalho e da história de Augusto Rodrigues Um pouco da história do pintor que anotava o cotidiano e que em Penedo trabalhava em seu atelier com vista para a serra. Augusto Rodrigues começou a vir para Penedo na década de 70, quando costumava se hospedar no hotel Vivenda Penedo, do também pintor e seu amigo Xavier.
E gostou tanto daqui, da história do lugar, da colonização finlandesa que contava também com bons pintores, da natureza exuberante da mata, que acabou comprando e reformando uma casa ao lado do antigo Clube finlandês, onde eram realizados os bailes. Ali montou um atelier com bela vista para a serra, trabalhou bastante e confraternizou com amigos como o jornalista Fernando Pamplona, o músico Turíbio Santos e tanta gente ligada ao mundo da arte que vinha se hospedar em sua casa. Ele era pernambucano de Recife, onde nasceu em 1913. Primo de Nelson Rodrigues e também parente da pintora e ilustradora Vera Rodrigues, que mora atualmente na Serrinha, caminho de Visconde de Mauá. Em 1933, com outros artistas, promoveu o I Salão de Arte Moderna de Pernambuco, e a partir de então passou a realizar exposições nas principais galerias do país, nos Museus de Arte Moderna das principais cidades e nas Bienais, além de em vários países da América latina e da Europa.
Em 1948 ha um marco importantíssimo em sua vida: ele funda e dirige a Escolinha de Arte do Brasil, no Rio, passando a irradiar a idéia de ensino da arte como parte fundamental da educação- tema que foi a grande paixão de sua vida. Os anos de 53 e 54 eles os passa na Europa, e participa ativamente, em Paris, na sede da Unesco, da Assembléia de fundação da "Sociedade Internacional para Educação Através da Arte". Ganhou muitos prêmios, participou ativamente da política cultural do país, dentre outros modos como membro do Conselho Nacional de Cultura. Foi ilustrador e caricaturista dos principais jornais do pais entre 34 e 60 e ainda escreveu alguma poesia. Resumo de Uma Visão Crítica Em 1980, o critico de arte Jacob Klintowitz escreve um estudo para um livro comemorativo dos 50 anos de atividade de Augusto Rodrigues. Transcrevemos aqui alguns trechos para que se tenha idéia de seu trabalho. Ao pensar sobre a diferença entre o traço do desenho e a pintura cromática, diz Jacob que "em Augusto Rodrigues a pintura e o desenho são de tal maneira integrados, no que possuem de características fundamentais, que a sua expressão artística pode ser analisada como um todo. E claro que, em alguns casos, existe a evidência do cromatismo ou da linha. Contudo, Augusto Rodrigues não busca o virtuosismo da linha ou das questões cromáticas. A sua busca é, ao contrário, a de realizar uma análise de vida cotidiana, realizar um registro e obter s suas lições de sabedoria". Em outro trecho, ao falar sobre a questão das fases de um artista, diz o critico: "No restrito circuito artístico. onde os pintores trocam de fase como de indumentária e onde a palavra "fase" adquiriu uma inegável conotação mercadológica - nova embalagem ! - Augusto Rodrigues é esta raridade: um artista sem fases. Até hoje a sua atenção concentrou-se em alguns assuntos. Frevo, mulheres, a história de Abelardo e Heloísa, naturezas mortas etc. Foram encontros e assuntos aprofundados.
Mas a sua maneira de trabalhar, a abordagem, não encontram particularidades e separações. E Augusto Rodrigues tem se dado ao prazer de retornar aos assuntos que lhe são caros. Há um poema seu especialmente significativo: "Que terrível é querer / diferençar entre o antes e o depois". Sobre a mulher, tema recorrente em Augusto Rodrigues, diz Jacob: " No seu trabalho a mulher é um ser absolutamente íntegro. Ela não e diferente do homem no seu estar no mundo, na sua realidade existencial (...) Augusto Rodrigues a observa interessadamente e quer registrar o seu mistério. (...) No seu registro não existe o olhar histórico e cultural do homem sobre a mulher. Existe apenas o olhar do homem sobre um ser humano. E por isso que a sua consideração e calma é repleta de compreensão. /...) A sua mulher é feita de humanidade, e mais lírica do que sensual. Não há o olhar do dono, mas a postura de um artista que pousa o olhar sobre os objetos que o cercam". Sobre seu trabalho de educador. "Percorria o Brasil e parte da América do Sul fundando escolinhas de arte e dizendo que, na aprendizagem, professor e aluno deveriam estar em perplexidade. Nada de verdades estabelecidas e de imposições. Aprender juntos, diante de dois mundos maravilhosos: o mundo da existência real e o mundo da criatividade humana. E a criatividade, a liberdade de tão difícil aprendizagem para o adulto, era a expressão natural do ser humano.
Cumpria não castra-la na criança (...) E foi esta sensação de liberdade, hoje um conceito tão claro e aberto no seu ideário, que o levou a ser colecionador de arte popular; a organizar exposições de arte infantil em tantos países europeus e sul-americanos e a fazer um trabalho pessoal composto de tanto sentimento e liberdade. De alguma maneira pode ser dito que Augusto Rodrigues fez uma anticarreira, deixou-se carregar pelos ventos e pelo amor e envolvimento com os seres e situações. O seu foi um caminho do ser em direção ao encontro que julgava principal, o encontro consigo mesmo. O que só pode realizar-se com o livre exercício de uma percepção que possuía e por um amor desabrido, um amor desabrido e total pela idéia de liberdade."
Só nos resta torcer para que, em breve, Penedo tenha o "Museu Augusto Rodrigues", pois sua casa aqui conta não só com um bom acervo do seu trabalho mas também com uma bela coleção de arte popular.
|