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Nilo Vlatonen, último dos pioneiros vivo, fala sobre a controvertida personalidade de Toivo Uuskallio
Nilo Valtonen veio para Penedo em 1932, com 19 anos, para tentar reaver um dinheiro que o pai havia emprestado a Uuskallio, o carismático fundador da colônia finlandesa, que pregava um regime estritamente vegetariano e uma vida em comunhão com a natureza como meio de formar uma humanidade que não vivesse mais em estado de guerra. Não conseguiu receber e, sem dinheiro para voltar à Finlândia, viu-se obrigado a integrar-se à colônia, vivendo nela desde os tempos duros, quando havia pouco o que comer, até aos dias atuais, com o grande desenvolvimento trazido pelo turismo.
 Toivo Uuskallio
Hoje, aos 87 anos, na sala de sua casa, cheia de livros e recordações, Nilo gravou esta conversa com nosso jornal, onde reconhece as virtudes de liderança e idealismo de Uuskallio, mas registra também um lado autoritário, centralizador e enrolão daquele homem de brilhantes olhos azuis "de quem ninguém ganhava na conversa". Coordenada à entrevista, publicamos uma crônica de Nilo recordando uma palestra de Uuskallio sobre alimentação feita na seda da fazenda, quando todos ainda moravam ali.
NARIZ: 0 senhor conta nas suas memórias que veio para Penedo em 30 para reaver o dinheiro que seu pai havia emprestado a Uuskallio. 0 senhor não tinha também intenção de se integrar à colônia?
NILO: Não. Só queria reaver o dinheiro que o per-dulárío do Uuskallio já havia gasto. 0 empréstimo do meu pai era uma espécie de endosso, era para ser devolvido mas não foi. Eu havia saído da escola e nós estávamos em dificuldades. Eu soube que o Uuskallio tinha ido aos Estados Unidos para conseguir dinheiro emprestado e resolvi viajar para o Brasil para encontrar ele quando voltasse com dinheiro.
NARIZ: E ele pagou?
NILO: Ele voltou sem dinheiro. Ele não conseguiu os empréstimos que foi tentar.
NARIZ: E por que o senhor não voltou para a Fin-lândia.
NILO: Não tinha dinheiro. Os últimos 100 marcos que eu tinha gastei com alfândega e outras coisas no Rio. Para vir pra cá eu vendi até a minha mala. Só consegui voltar à Finlândia 20 anos depois. Eu ficava esperando receber o dinheiro para voltar, mas nunca recebi. Nem dias de trabalho ele pa-gava para mim.
NARIZ: Você acha que o Uuskallio era um enganador dos outros ou um idealista que queria um ser humano melhor?
NILO: (rindo) Era as duas coisas... Aquelas teorias dele de só comer vegetais não funcionavam porque aqui não tinha nada. Feijão duro que ele comprava no armazém perto da estação, que vendia fiado, e vendia tudo que era velho: arroz quebrado, aquele feijão que quando se derrubava da concha fazia barulho igual a chumbo...
NARIZ: Ele tinha esse ideal de co-munidade vegetariana mas me pa-rece que vocês nunca plantavam em primeiro lugar para a própria alimen-tação. Era sempre um projeto empre-sarial, tipo milhares de mudas de la-ranjeiras, sempre uma coisa meio grandiosa que ele fazia as contas lá e projetava mentalmente um grande progresso com o dinheiro que seria arrecadado.
NILO: E esses projetos eram mal re-alizados. Plantávamos tanto limão para enxertar... E não tinha laranjei-ras para tirar borbulhas... Nunca plantou laranjeiras para ter borbu-lhas. Como é que podia? Porque teve uma hora que os fazendeiros que vendiam mudas de laranjeiras não tinham nem para eles.
NARIZ: As memórias que o senhor escreveu dão a entender que uma forma de ele controlar tudo era não dividir a terra, de modo que ninguém podia ter iniciativa própria. Ele ficava um pouco como um coronel?
NILO: Sem dúvida. Fagerland, que era amigo de peito dele e veio junto em 29, deu todo o dinheiro que ele tinha, mais de 100 mil marcos, e não ganhava sua terra.
NARIZ: Mas o Suni tinha sua terra. Os Bertell também.
NILO: Os Bertell vieram, mais tarde, uns 10 anos. No começo só Suni ti-nha porque era sócio dele; ele não podia negar... Ele tapeava a gente. Era difícil de saber bem o que ia na cabeça dele. Ele vivia no Rio... No Hotel Palacete, na rua do Riachuelo n.217. Viveu lá 20 anos só ten-tando emprestar dinheiro. Em 20 anos ele conseguiu gastar três ve-zes o preço da fazenda. Ele vivia bem... Como eu escrevi, em 1935 ele comprou fiado duas caixas de maçã argentina e deu uma para cada um de Natal... Para ver quanta fruta nós comemos(ri). Em cinco anos, uma maçã. A fruta era a base da alimen-tação na teoria dele. Manga até que tinha bastante, mais de 200 man-gueiras, mas em 35 foi vendida par-te da fazenda e nem manga tinha mais...
NARIZ: Ele ficava no Rio, ou indo ao exterior, e a colônia de Penedo era o tema com o qual ele pedia di-nheiro, era isso?
NILO: Ele foi pedir dinheiro até ao Getúlio Vargas, pessoalmente. Getúlio Vargas era escolado, não é... não deu. Ele falou assim: "se eu te-nho mais de três mil fazendeiros no Brasil que precisam de dinheiro, por que eu vou dar para você?"
NARIZ: Quando o Uuskallio vendeu a parte de cima da fazenda - região conhecida até hoje como "Fazendinha" - aquela área foi ocupada por famílias do interior de Minas que vi-viam de agricultura de subsistência. Plantavam milho, feijão, arroz, man-dioca; tinham criação de galinhas, porcos, até um gadinho. Não tinham nenhuma filosofia ou ideologia vege-tariana, mas a coisa deles dava certo. Vocês tinham relação com eles? Ou a fase de vocês plantarem foi anterior?
NILO: Não, foi junto. Mas eles tinham uma vida primitiva não é... Não dava para copiar muito... O Uuskallio também mandou plantar mandioca e batata doce, mas acho que ele errou ao determinar um lugar muito afasta-do da fazenda. Dois quilômetros e meio. O pessoal perdia tempo para ir e voltar, e também ficava mais difícil para combater formigas e pragas, e também alguém roubava sem que a gente visse.
NARIZ: Como o senhor vê a imagem do Uuskallio hoje, como o grande lí-der idealista?
NILO: (pensa um pouco)...está certo porque para isso ele servia. Para pro-paganda, para blá blá blá. Ele era in-vencível nisso..:
NARIZ: Você hoje em dia sente arrependimento de ter vindo para o Brasil.
NILO: Já passei essa época. Nos pri-meiros cinco anos eu pensava em vol-tar. Depois fui ficando conformado. Meu pai não tinha dinheiro para man-dar para a passagem. Agora tenho que ficar por aqui mesmo.
NARIZ: Você nunca mais viu seu pai?
NILO: Não. Ele morreu em 1960. Mi-nha mãe morreu depois -.. Pois é....
NARIZ: E você casou aqui? Teve filhos?
NILO: Casei em 39, quando vi que não podia voltar, e a guerra estava presente. Quando casei quis meu pedaço de terra para me estabelecer com a mulher, mas o Uuskallio só queria me dar um pedaço lá no alto da Fazendinha. Minha mulher chora-va. Eu queria onde eu já estava mo-rando, onde hoje é o Girassol, e aca-bei ganhando este pedaço mais tar-de através de uma ação oficial de um grupo de finlandeses que comprou um terço da fazenda com tudo registrado na Legação da Finlândia. Aqui está o papel (Nilo mostra o documento antigo) .Um papel desse, com tan-to carimbo, selo e assinatura, o Uuskallio não podia ignorar. Ainda assim, este um terço da fazenda deveria corresponder a 200 hectares e nós só ficamos com 70.
NARIZ: A sua parte foi comprada com que dinheiro?
NILO: Com o dinheiro que meu pai havia emprestado no início. A Lega-ção da Finlândia considero isso.
NARIZ: Tem uma passagem nas suas memórias em que o senhor diz que o Toivo Suni era um ecologista antes mesmo de agente ter este conceito. E o Uuskallio, que era quem mais defendia teses ecológicas?
NILO: 0 Uuskallio era mais um político.
NARIZ: E conseguiu que vocês todos votassem nele (risos). Eu acho curio-so é que com toda a teoria de vida saudável o Uuskallio morreu cedo. Ele tinnha quantos anos quando mor-reu?
NILO: Tinha 60 anos. Morreu de fome. Assim como Markulla, que também era adepto do Uuskallio e dizia que homem vive 120 anos. Morreu por volta dos 60, também. De fome.
NARIZ - Mas como de fome? O Uuskallio tinha dinheiro, comprava mação, frutas; vivia bem, como você mesmo disse.
NILO: Sim, mas tinha também um pensamento de jejum; de que não comendo a gente vive melhor, é melhor para a saúde. Lembro de uma vez que o Uuskallio estava todo esfolado porque andava caindo na rua, já devia estar meio fraco. E ele disse a mim que aquilo era por causa de comida ruim, que ele ia jejuar e ficar bom, e assim acho que acabou morrendo por isso. Comia-se muita banana, mas banana não tinha todos os nutrientes necessários.
NARIZ: Havia também uma teoria de que ficando-se com a bunda na água corrente com freqüência curava-se as doenças, certo? Você conta isso nas memórias. Chamava-se a isso Kuhnir.
NILO: Era uma teoria de um alemão, Luis Kuhne, e todo mundo fazia isso nos anos 30. Eu mesmo fiz bastante. Achava-se que a água corrente passando pelo traseiro ia fazer funcionar bem o nosso sistema digestivo, os elementos estranhos que se acumulam nos músculos iam sendo eliminados pelos canais competentes. Era quase um vício de todo mundo nos anos 30.
UMA PALESTRA DE UUSKALLIO NO CASARÃO
Numa tarde, irmão Uuskallio tez uma palestra sobre a nutrição do homem.
Quando os ouvintes esta-vam todos sentados, ele começou a talar:
- A nutrição do homem não é coisa de credo ou crença. A alma náo precisa de comida, mas o corpo precisa. 0 que é isto? Na Bíblia, qua-se no começo do livro de Moisés, diz: "Dou todas as ervas onde há semen-tes em cima da terra e todas as ár-vores onde há sementes para vos-sa comida" (Gênesis 1.11) Será pre-ciso comer carne? Naturalmente que não! Se defendermos isto com as palavras da Bíblia: "Domine peixes do mar, pássaros do céu e todos os animais da terra", esta frase é com-preendida erradamente. Também está escrito: "Seu marido domina você", sem que isto compreenda matar a mulher.
Está claro que são os vege-tais a única comida para o homem e a nós é fácil escolher o que comer dos alimentos presentes.
Quais os alimentos que se podem aproveitar diretamente da natureza? Asfrutas: uvas, figos, tâ-maras, maçãs, laranjas, limão e pê-ras são tidos como os melhores nutrientes. Se a ela juntarmos o côco, castanha do Pará e outras nozes, o homem está nutrido. E além disso, são de fácil digestão. Se o homem come só mel, sua digestão fica rápi-da demais e provoca febre nas tripas.
Portanto, vemos que tem muitos alimentos na natureza.
Olhai a cozinha da natureza! Árvores frutíferas, as quais fabricam os elementos minerais para nossa gordura, proteínas e açucares. As frutas in natura são melhores e de mais fácil digestão para o homem.
A Finlândia é terra de lobos e ursos. Isso sempre foi assim. O cri-ador a criou para isso. Onde o ho-mem vive melhor? Onde pode com menos esforço viver em harmonia com a natureza. Todas as frutas são alimentos. O homem e a palmeira pertencem um ao outro. Instintiva-mente, queremos que as palmeiras sussurrem paz em cima de nossas cabeças.
Como são versáteis as pal-meiras. Tomemos por exemplo o côco da Bahia. A água de côco é uma bebida excelente. Também dele pode ser extraída a gordura, muito melhor do que o toucinho ou outras gordu-ras que estragam em alguns dias. A gordura de coco se conserva alguns anos. Ela se derrete na temperatura do corpo. O coqueiro tem vida muito longa e não requer tratos.
Todos conhecem a tâmara. É natural das palmeiras que crescem nos oásis dos desertos, produzindo centenas de quilos de fruto por ano. É o melhor nutriente para o homem. Tem mais de seis por cento de pro-teínas. A tâmara tem mais ou menos oitenta variedades. Quem não gos-taria de comer tâmaras? Naturalmen-te todos. A natureza doou ao homem o alimento mais natural.
Aqui na colônia temos uma pequena palmeira chamada tucum. Dá cachos pequenos com côcos do tamanho de uma uva. São muito re-frigerantes. Quase todas as palmei-ras produzem côco, donde pode-se extrair a gordura. Às vezes, em cima do coco há uma parte comestível como no açaí que produz uma be-bida gostosa e nutriente.
Das palmeiras pode-se falar horas, pois são 250 variedades. Ou-tros afirmam que são 400, todas úteis. Das palmeiras, podemos usar o tronco, como no sagro, outras dão palmi-tos. As folhas servem para cobrir ca-sas. A palmeira carnaúba produz cera. As folhas da palmeira servem para demonstrar paz nas procissões".
Irmão Uuskallio falou durante uma hora. Quando ele acabou, depois de um momento de silêncio, um agri-cultor perguntou: - Por que nós plantamos e comemos feijão?
Por que nós não comemos só frutas? Irmão Uuskallio engoliu com esforço, conforme seu costume, e res-pondeu:
- O bom irmão não sabe que chegamos há muito pouco tempo? As árvores frutíferas ainda não tiveram tempo de crescer e nós ainda não plantamos todas. Estamos vivendo as dificuldades do começo. Mas quando plantarmos mais árvores teremos frutas para comer. - Mas por que não se compram frutas?
- O bom irmão não sabe como é difícil o transporte de frutas? E por outro lado são muito caras para nos-sa alimentação.
Aí, o irmão inquiridor ficou pensativo como os outros.
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